Anos 2020

Benedito Ruy Barbosa: morre o autor que levou o Brasil rural para a novela

Criador de obras como Pantanal, Renascer, O Rei do Gado e Terra Nostra, Benedito Ruy Barbosa morreu aos 95 anos em São Paulo e deixa um dos legados mais fortes da teledramaturgia brasileira.

Por Mofolândia ·
Benedito Ruy Barbosa: morre o autor que levou o Brasil rural para a novela
Foto: Simone Marinho / Agência O Globo

Morreu nesta terça-feira, 7 de julho de 2026, em São Paulo, o dramaturgo e escritor Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos. A morte foi confirmada pela família, segundo a Exame. O autor havia ficado internado no início do ano para tratar uma infecção urinária associada a um quadro de insuficiência renal crônica.

Benedito foi um dos nomes mais importantes da televisão brasileira. Em mais de cinco décadas de carreira, construiu uma obra marcada pelo interior do Brasil, pela vida no campo, pelas disputas familiares, pela imigração, pela terra, pela fé, pelo amor e pela relação entre o homem e a natureza.

Sua morte encerra a trajetória de um autor que ajudou a formar a memória afetiva de milhões de brasileiros. Para muita gente, novelas como Pantanal, Renascer, O Rei do Gado e Terra Nostra não foram apenas entretenimento. Foram histórias acompanhadas em família, comentadas no trabalho, na escola, na rua e dentro de casa.

Benedito Ruy Barbosa tinha uma assinatura clara. Suas novelas olhavam para um Brasil longe dos apartamentos de luxo e das tramas urbanas tradicionais. Ele colocou fazendas, rios, plantações, boiadas, famílias de imigrantes, peões, coronéis, trabalhadores rurais e conflitos de terra no centro do horário nobre.

O autor de Pantanal, Renascer e O Rei do Gado

Benedito nasceu em Gália, no interior de São Paulo, em 1931. Antes de se firmar como autor de televisão, passou por diferentes trabalhos e iniciou sua trajetória na escrita como revisor no jornal O Estado de S. Paulo. Sua estreia na TV aconteceu em 1966, na TV Tupi, com Somos Todos Irmãos. Em 1971, escreveu Meu Pedacinho de Chão, um dos primeiros grandes sucessos da carreira.

Mas foi com obras rurais e familiares que seu nome virou referência. Pantanal, exibida originalmente pela TV Manchete em 1990, mudou o jeito de o público olhar para a novela brasileira. A trama levou para a televisão paisagens naturais, ritmo mais contemplativo e um Brasil profundo que parecia distante do eixo urbano das grandes emissoras.

Depois vieram outros marcos. Renascer, de 1993, mergulhou no universo do cacau, da Bahia e de uma família marcada por paixão, poder e destino. O Rei do Gado, de 1996, levou ao centro da trama a disputa por terra, o agronegócio, o Movimento dos Sem Terra, a política e os conflitos familiares. Terra Nostra, de 1999, resgatou a imigração italiana e ajudou a contar uma parte importante da formação social brasileira. Entre suas obras mais conhecidas também estão Velho Chico, Sinhá Moça, Paraíso e Cabocla.

O diferencial de Benedito estava na capacidade de transformar temas brasileiros em novela popular. Ele falava de terra, família, tradição, memória, paixão e poder sem perder o vínculo com o grande público.

Um legado que atravessou gerações

O legado de Benedito Ruy Barbosa não ficou preso ao passado. Décadas depois, suas histórias continuaram voltando à televisão. Pantanal e Renascer ganharam novas versões na Globo, adaptadas por seu neto, Bruno Luperi, mantendo viva a força das tramas originais.

Isso mostra o tamanho da permanência de sua obra. Poucos autores conseguiram criar novelas tão identificáveis, com universo próprio e personagens que continuaram sendo lembrados muitos anos depois da exibição original.

Benedito também influenciou uma linhagem familiar na dramaturgia. Suas filhas Edmara Barbosa e Edilene Barbosa trabalharam em novelas e adaptações ligadas à sua obra, e Bruno Luperi assumiu a missão de levar parte desse repertório para uma nova geração de telespectadores.

Sua importância está justamente aí: Benedito criou um Brasil televisivo reconhecível. Um Brasil de porteira, rio, fazenda, lavoura, família grande, herança, amor impossível, vingança antiga e disputa por terra. Um Brasil muitas vezes idealizado, mas cheio de força dramática e memória popular.

Com sua morte, a televisão brasileira perde um autor raro. Benedito Ruy Barbosa não escreveu apenas novelas de sucesso. Ele ajudou a construir imagens que ficaram na cabeça do público: a imensidão do Pantanal, a fazenda dos Mezenga, o cacau de Renascer, os imigrantes de Terra Nostra, o sertão poético de Velho Chico.

No fim, seu legado é simples de entender. Benedito fez o Brasil olhar para dentro do próprio país. Levou o campo para a sala de estar, colocou o interior no horário nobre e provou que uma novela podia ser popular, rural, política, familiar e profundamente brasileira ao mesmo tempo.

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